Congonha

Arca del Gusto
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Congonha é o nome de várias espécies de ervas do género Luxemburgia, encontradas quase exclusivamente na região da Serra do Espinhaço de Minas Gerais, tradicionalmente utilizadas na preparação de infusões e medicamentos populares.

As congonhas são plantas do gênero Luxemburgia (família Ochnaceae), estabelecido em 1822 por Saint Hilaire, que o dedicou ao duque de Luxemburgo, na época embaixador da França no Rio de Janeiro. São espécies arbustivas, facilmente reconhecíveis pelas folhas de bordas serrilhadas e com nervuras características, flores amarelas vistosas e presença eventual de cílios em várias partes da planta.

Os estudos mais recentes reconhecem 19 espécies, das quais 16 ocorrem exclusivamente no estado de Minas Gerais (85%). As espécies ocorrem somente no Brasil, e podem ser encontradas em campos rupestres e afloramentos rochosos da Cadeia do Espinhaço, acima de 1000 metros de altitude.

O uso da congonha por populações indígenas é pouco documentado, mas evidente na literatura e fontes históricas. O nome deriva do tupi congõi (ou "ko'gõi"), que significa “o que sustenta ou alimenta” (SAMPAIO 1987). É utilizado para denominar também outras espécies, utilizadas de forma similar. O termo “bugre”, usado de forma pejorativa por colonizadores para indicar os índios - sobretudo os mais belicosos - faz clara referência ao habitante indígena, dado pelo português à planta em sua versão provavelmente muito utilizada por estes povos. Cabe ainda uma reflexão sobre a associação entre índios “violentos” e a energia, vigor que é associada por estes grupos e à esta planta.

Em Minas Gerais, até a difusão do café, é certo dizer que a infusão da congonha era a bebida habitual de tropeiros e viajantes, além de moradores de arraiais e povoados das regiões serranas do estado. A planta é tradicionalmente utilizada como chá na medicina popular, com as folhas coletadas de preferência no período da Semana Santa, momento “abençoado” para colher, desidratar e usar a erva durante o ano.

É reconhecida por suas propriedades anti-inflamatórias, calmantes, diuréticas, sudoríficas e tonificantes, utilizada também para alívio de dores articulares, contra ansiedade e no controle da pressão arterial.

O explorador britânico Richard Francis Burton, em meados do século XIX, viajando pela região de São João del-Rei e Lagoa Dourada, fez as seguintes anotações ao passar por Congonhas, em 1868:

"Congonhas é chamada "do Campo", para se distinguir de Congonhas de Sabará (atualmente Nova Lima). O nome é comum no Brasil, sendo aplicado pelos tropeiros e viajantes a muitos lugares onde são encontradas as diversas variedades de iliciáceas, da qual a mais valiosa é o mate (Ilex paraguayensis) (...) A palavra brasileira congonha é genérica, abrangendo todos os arbustos dos quais se faz "o chá do Paraguai". É também especificamente aplicado ao Ilex congonha, comum em Minas e no Paraná. O chimarrão de congonha é a única infusão bebida sem açúcar. A caraúna é uma congonha de qualidade inferior."

Apesar da imprecisa identificação botânica (a congonha que encontrou em Minas não faz parte do gênero Ilex, mas sim Luxemburgia), o relato de Burton atesta a presença e importância dessa erva entre as populações que encontrou em suas viagens. A planta dá nome às cidades de Congonhas (Congonhas do Campo, até 1948) e Congonhal, ambas em Minas.

A sabedoria popular distingue diversas variedades de congonha, que são usadas conforme a ocorrência na região ou conforme o efeito medicinal desejado. As mais populares e conhecidas são a congonha-do-campo, congonha-da-serra, congonha-amarela, congonha-de-bugre (nome também usado para algumas espécies de Rubiaceae e Ilex) e a congonha bate-caixa ou congonha-caixa-de-guerra, de folhas grandes e coriáceas (que parecem couro), que produzem um curioso som quando percutidas uma contra a outra. O efeito diurético de algumas variedades é a origem da alcunha de "congonha-mijona" (que também parece fazer referência à Ilex diuretica Mart. ex Reissek). São conhecidas também congonha-amargosa, benéfica para o fígado; a congonha-serrinha, de folhas pequenas e picotadas, como os dentes de um serrote; a congonha-douradinha, ou congonha caixeta (de folhas miúdas, que secas ganham uma tonalidade amarelada e produzem um chá bem amarelo), procurada pelo benefício purificante dos canais urinários e na próstata.

Esta última, congonha-douradinha, tem predileção por solos ricos em minerais e, conforme muito bem nota José Félix Junqueira (o Zezeca, morador de Congonhas - MG), a mais rara, que encontra-se hoje especialmente ameaçada pela presença da atividade mineradora em seus territórios.

As variedades de congonha são utilizadas conforme presença em suas áreas de ocorrência, seja de forma individual (o chá feito com apenas uma variedade) ou com a mistura de mais de uma variedade, criando bebidas com diferentes efeitos e nuances de sabor, cor e aroma.

A Serra do Cipó e o Planalto de Diamantina são as áreas que concentram a maior diversidade do gênero Luxemburgia. É provável que o ancestral das espécies atuais colonizou essas regiões e, em seguida, se diversificou em eventos de especiação (surgimento de novas espécies por isolamento reprodutivo).

A literatura especializada nos fornece algumas descrições e indicações de ocorrência. Entre elas: L. octandra (congonha-da-serra, congonha-amarela), que está entre as espécies mais coletadas do gênero, consideravelmente ampla em Minas Gerais, planta mais baixa em relação às outras, com inflorescências mais densas, folha inteiramente ciliada, na forma de “espátulas” ou obovais; L. polyandra (congonha-do-campo, mate-do-campo), relativamente ampla, bastante difusa na Serra do Cipó e mais ainda em Diamantina; L. schwackeana, muito coletada na região da Serra do Cipó, presente em Diamantina e Caeté; L. ciliosa, concentrada na região de Diamantina, L. ciliatibracteata, encontrada na região de Jaboticatubas; L. speciosa, encontrada junto a L. Octandra no Serro e em Milho Verde; L. bracyeaya, L. corymbosa e L. nobilis encontradas nas Serras do Caraça e em Ouro Preto; L. macedoi Dwyer na Serra da Canastra e Araxá; L. mongolensis, presente unicamente na cidade de Grão Mogol e L. furnenses, encontrada na Reserva da usina Hidrelétrica de Furnas (município de Passos) e um pouco mais ao Sul, em Alpinópolis.

Fora de Minas são registradas L. diciliata como única espécie presente no maciço da Chapada Diamantina, na Bahia, L. glazioviana como uma espécie restrita dos afloramentos rochosos da e matas de de altitude da Serra dos Órgãos e na Pedra Dubois, no Rio de janeiro e 2 subespécies de L. macedoi Dwyer encontradas na região central de Goiás.

Provavelmente, boa parte dos mineiros não sabe reconhecer as espécies de congonha e não imagina que ela seja uma planta quase exclusiva de Minas Gerais. Parte do desinteresse atual pela planta pode estar relacionado ao fato dela não poder ser cultivada em escala, sendo um produto do extrativismo tradicional. Estas plantas, junto com os saberes e os benefícios a elas associados, estão ameaçados pela ocupação desregulada do solo, pelas queimadas, pela mineração, pelo desmatamento e pela criação extensiva de animais em áreas de Cerrado.

Estas espécies precisam ser reconhecidas enquanto patrimônio de biodiversidade e de cultura alimentar, suas áreas de ocorrência devem ser preservadas e os saberes relacionados a elas devem ser valorizados e multiplicados entre as gerações.

Para se fazer o chá, usa-se a folha verde, recém-colhida, ou então seca, desidratada sob uma peneira ou em feixes pendurados à sombra, ou ainda no calor morno do forno de barro. Depois de seca, faz-se o chá mediante fervura, adoçado ou não. Uma outra forma de uso prevê a torra das folhas secas, que são depois moídas e coadas, sozinhas ou juntas ao pó de café, aromatizando a bebida.

O sabor da infusão da congonha pode variar de acordo com a espécie, condições climáticas de onde nasce a planta e o tratamento das folhas depois de colhidas, que pode ser nenhum (chá de folhas frescas), secagem ou torra.

Neide Rigo, do Blog Come-se conta: “a folha torrada lembra chá mate”. Feito o chá das folhas secas diz: “é como um mate fresco, com aroma mais delicado e adocicado com um amargor muito discreto. Mas a característica, a lembrança imediata, é mesmo do chá mate”.

Desde Burton até hoje, a congonha passou da “única infusão bebida sem açúcar” para um chá quase sempre adoçado, inclusive com açúcar no ponto de caramelo. Mas a própria Neide confessa: “fazem o chá com açúcar queimado e fica uma delícia, apesar de eu tomar chá sem açúcar esse ficou muito bom."

Além de ser usada como bebida, nada impede que a folha de congonha seja usada para aromatizar outras infusões, preparações culinárias como refogados, produtos de forno e muito mais.

Territorio

NazioneBrasile
Regione

Minas Gerais

Area di produzione:Serra do Espinhaço, nel Minas Gerais, Bahia, Goiás e Rio de Janeiro

Altre informazioni

Categorie

Spezie, erbe selvatiche e condimenti

Segnalato da:Marcelo Aragão de Podestá, Jerônimo Villas-Bôas